Do outro lado do espelho

Magritte, La Reproduction interdite.
"Ele precisava tanto de escrever
como de apagar o que escrevia"
(Pedro Paixão)
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Alberto João Jardim é o nosso Fidel Castro.
É claro que Alberto João Jardim não ia gostar nada da comparação. E é verdade que ela é abusiva, e mesmo ofensiva. Para Fidel Castro, evidentemente.
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I
Não sabemos nada, Alice, não sabemos nada sobre o essencial. Somos criaturas tacteantes. Pouco vemos e pouco compreendemos. Pouco sabemos. Pouco somos. Ao menos durante esse breve suspiro que imaginamos ser a nossa vida e que vai do nascimento à morte, o que quer que seja, tenha sido ou venha a ser isso a que chamamos nascer viver morrer. O ser lançado no mundo. É isso que somos. Um fósforo rasgado contra as trevas. Uma réstia de luz. Um abrigo para a esperança. É isso que somos. O pouco transformado em muito, transbordante de si, o muito reduzido a nada, o nada reinventado de cinzas. É isso que somos. É isso que sempre fomos e seremos. A respiração de Deus. É talvez isso a vida e nada mais. A respiração de Deus. Somos como o vento que sopra e que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai. Somos o tempo que passa e que regressa sempre. Que estando nunca está e que não estando nunca deixa de estar. Somos frágeis, transitórios e incertos como a memória. Inseguros como a saudade. Misteriosos como a noite. Estranhos como a vida. Somos mãos abertas e estendidas. Somos cabelos soltos. Somos corpos habitados por fantasmas. Somos o que fica do que passa e o que passa do que fica. Somos tudo e não somos nada. somos feitos de luz e de sombra. Somos um equilíbrio de contrários. Uma dialéctica de opostos. Que afinal são o mesmo. Com outro rosto. Outra forma. Outra configuração. Mas tudo parte do mesmo ser. Sem limites definidos. Tocando-se, penetrando-se, fecundando-se. Como o masculino e o feminino. Como o espaço e o tempo. Como o ying e o yang. Como o quente e o frio. Como o pesado e o leve. Como o forte e o fraco. Como a razão e a loucura. Como a vida e a morte. Como a alegria e a tristeza. Como eu. Como tu. Como nós.
II
Alice, para lá do horizonte esconde-se aquilo que os olhos não podem ver, as mãos não alcançam, a mente não imagina. Para lá do horizonte esconde-se o sentido da esperança, o destino da procura, o conhecimento desconhecido. Para lá do horizonte está tudo aquilo que tu és e que eu sou. Para lá do horizonte está o que nos completa. Para lá do horizonte estamos nós. Para lá do horizonte está a verdade da ternura e o silêncio da felicidade. Para lá do horizonte estão os olhos que os olhos não podem ver, as mãos que as mãos não podem tocar, a mente que as mentes não sabem pensar. Para lá do horizonte está tudo o que não existe, o que não tem espaço nem tempo. O que vive dentro de nós e não sabemos. Tudo aquilo a que damos abrigo e nos ultrapassa. Para lá do horizonte desenha-se a história da eternidade. Para lá do horizonte estamos nós.
III
Olha para ti. Sabes o que vês? Vês Buda. Ouvi dizer que era assim. Inventámos tantas vidas para desarranjar o pesadelo. Mas nunca sabemos se despertamos. Sabes que Buda um dia ergueu uma flor? No silêncio do segredo revelado todos esperavam uma palavra. Só Mahakasyapa sorriu. Era o sorriso da esperança. Mas a nós ensinaram-nos o desespero. A puta de religião onde crescemos. Com as suas verdades esterilizadas. Puras como o vazio estéril de Maria. A mãe de um Deus eternizado numa cruz. A nossa pequena cultura da morte e da infelicidade. O peso infernal do passado, da memória, do pecado. Marcado na carne como a origem do mal. E caminhamos abismados por dentro de falsas ilusões. Quando Buda pegar na flor não te esqueças de sorrir. O amor é uma estrada onde aprendemos a tocar o íntimo.
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And the Germans kill the Jews
And the Jews kill the Arabs
And the Arabs kill the hostages
And that is the news
And is it any wonder that the monkey's confused
He said Mama Mama, the President's a fool
Why do I have to keep reading these technical manuals
And the joint chiefs of staff
And the brokers on Wall Street said
Don't make us laugh, you're a smart kid
Time is linear
Memory's a stranger
History is for fools
Man is a tool in the hands
Of the great God Almighty
And they gave him command of a nuclear submarine
Sent him back in search of the Garden of Eden
Can't you see
It all makes perfect sense
Expressed in dollars and cents,
Pounds, shillings and pence
Can't you see
It all makes perfect sense
(Roger Waters, Perfect Sense
in: Roger Waters, Amused to Death)
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I'll tell you a secret I don't even know
(Aimee Mann)
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O espaço do sagrado
Existe um espaço do sagrado ou nada é sagrado
O meu corpo é um espaço do sagrado ou apenas a alma o é
Onde é que começa o sagrado
Nos limites do meu corpo ou para além dele numa alma que o transcende
Se não houver alma ou se alma for só outra forma de dizer corpo o sagrado começa no meu corpo
Encerra-se no meu corpo
O corpo é o sagrado
O corpo do outro é a pessoa do outro
O corpo é a alma
O corpo é
O corpo
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How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul on you,
And loved the sorrows of your changing face.
(W. B. Yeats)
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Queria eu uma estrela
Mesmo que fosse do mar
Para navegar nela
E não me afogar
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Ando eu para aqui à toa
Sem saber o que dizer
Fazia-me cá falta a Broa
Para me ajudar a escrever
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Este blog vai de deprimido a deprimente
Até eu já me sinto doente
Para tornar isto menos decadente
Fazia cá falta era a Vicente
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